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A Cultura do Litígio e o lento processo de morte que isso nos provoca como seres humanos

  • Paloma Rolhano Cabral
  • 18 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Quantas e quantas vezes ouvimos que só o advogado litigante - aquele com fama de brigão - que consegue ganhar a confiança de um cliente? Que somente o perfil tubarão consegue ganhar o processo? Que somente o perfil estressado, bravo conseguirá resolver o processo? Que só ele será procurado pelos clientes?


“Advogado bonzinho passa fome” nos disseram. Ou ainda “advogado é uma raça do diabo”. Eu perdi as contas de quantas vezes ouvi isso.

A verdade é que fomos ensinados a fomentar o litigio. A briga. Desde o início da nossa educação somos treinados a competir. Melhor nota. Melhor posicionamento. Mas o ensino jurídico potencializa isso em mil. Insere um mindset de que qualquer coisa diferente do litigio não pode ser boa.


“Dra. Meu marido me traiu. Depois de 30 anos juntos, dois filhos e ele me traiu. “.

“Ahhhh, mas que absurdo!!!!! Ele é um cafajeste completo!!!!!!!! Como pode fazer isso contigo? Deixa pra mim que não vai sobrar nada nas contas dele. Vai ficar TUDO contigo.”

Essa não seria uma conversa comum de um advogado com seu cliente?


Quero fazer uma reflexão aqui: Perceba que em nenhum momento a pessoa no exemplo disse que gostaria de tirar tudo dele. Apenas contou que seu coração está partido.

E em geral, a advocacia toma isso como um grito de guerra. A verdade é que aprendemos na faculdade técnicas para defender nosso cliente. Fomos ensinados que tudo é na base de: um ganha, outro perde. Famoso sistema “ganha-perde”.


Passamos a faculdade inteira assistindo aos filmes norte-americanos de julgamento com júri, com aquele promotor de justiça tão articulado em sua oratória, que sempre consegue justiça e coloca o bandidão na cadeia.

O que muitas vezes os filmes não nos mostram é o quanto alguns casos mexem com os operadores jurídicos. E que na grande parte das vezes, a vida não é tão preto no branco, mas sim, um grande cinza.


A cultura do litígio instaurada no sistema jurídico mata o que nos faz humano: a conexão com o outro. Faz com que a gente enxergue o outro como um rival – e não como uma outra pessoa.

Uma traição é motivo de um grande coração partido. É um sonho desfeito. A alienação parental é um grito de dor de um dos pais. A violência é o produto de uma sociedade desajustada.


Servir à Justiça – e não à dor – é mais amplo. É ver o contexto. Quando conseguirmos acolher a dor do nosso cliente, mas também lembrarmos que do outro lado existe alguém que também está com seu coração partido – ou que passou por coisas que sequer imaginamos -, podemos passar a construir um direito mais humano.


Quando passarmos a entender que o litigio e a demonização do outro lado nos desconecta com o que nos torna humanos, perceberemos que existe outra forma de fazer Direito. Quando finalmente entendermos que tudo é sobre pessoas, seremos capazes de nos reconectarmos como coletivo.


Aprendemos sim que o litígio era a única forma. Mas venho aqui para te provocar: Quantas vezes sofremos achando que estamos sozinhos por achar que o direito é muito mais? Que muitas vezes, uma conversa com um cliente pode mudar todo o curso do processo - ou do acordo.


A verdade é que o Direito precisa de pessoas com um olhar sensível. Mais humano, menos robotizado. Que abre o diálogo. Que quer entender o outro. Que vê o que outros ainda não conseguiram ver.

Os clientes agradecem, o Judiciário agradece. E os nossos corações também.

 
 
 

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